P.S: e querem que eu leve este povo à sério... Estivessem vivos e eu dava uns conselhos para eles.
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Aforismas de Botequim
P.S: e querem que eu leve este povo à sério... Estivessem vivos e eu dava uns conselhos para eles.
Confissões
1. Sou dado a inércias profundas nas quais meu pensamento flutua sem rumo algum. Nesses momentos, eu penso e penso e penso. Curiosamente (e por razões ainda desconhecidas) isto ocorre com mais freqüência diante do ser feminino, com graves prejuízos para a minha participação neste comício chamado amor.
2. Tenho uma certa maldade guardada a sete chaves e que se manifesta diante, apenas, de uns poucos escolhidos. Se você, um dia, for um destes, seja discreto, por favor. E, para o seu próprio bem, fique perto de mim.
3. Escrevo para ganhar elogios. Sempre tento disfarçar, mas, no fundo, no fundo, no fundo, eu quero cafunés. Somente isto. Mas quem disse que cafuné não é razão para a palavra escrita? O problema é que eu mesmo jamais me dou cafunés. Eu sei que eu não mereço (ainda mais com o que escrevo). Ora, se eu mesmo não me dou elogios, esta é a tarefa do mundo. Mundo, por favor, seja caridoso!
4. Às vezes caio em um silêncio profundo que disfarço com muitas palavras. Estes são os momentos onde encontro minha nostalgia. Você quer saber por que disfarço? Ora, não quero dividir minha nostalgia com ninguém.
5. Talvez a confissão mais terrível: eu tenho o péssimo hábito de comparecer aos meus desencontros.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
A Procura e o Encontro
Paul Auster
Quando li pela primeira vez, aos doze anos, não percebi muitas e muitas coisas ditas subliminarmente. Mas lembro de sentir medo de que minha vida fosse parecida com a de Eduardo Marciano, o personagem central do romance. Lembro de, na época, ter identificado meus pais no livro: o ambiente familiar descrito por Sabino me soou muito próximo do que era minha famíl
ia em 1986 (eu, meu pai, minha mãe e minha irmã, então com 3 anos). Um ambiente de carinhos e incompreensões, de encontros e perdas, enfim, uma família. Isto me deu um sentimento ambíguo: por um lado percebi uma certa comunhão com o personagem, por outro senti medo de que a história da minha vida se desenrolasse como a do livro. Por um lado, me senti acompanhado; por outro, só.Depois disto, li o livro mais três vezes, além de folhear e namorar pedaços ad infinitum. Até hoje, não posso vê-lo em uma livraria (curiosamente, nunca o comprei), sem folheá-lo e reler alguma passagem. Na maioria das vezes, me emociono. Um pouco pelo medo que ele ainda me provoca – outras importantes pessoas que povoaram minha vida estão, para mim, no livro. Um pouco por esta experiência literária única: achar que um livro foi escrito pra você. Esta sensação é indescritível. Sem dúvida nenhuma, foi o livro de Sabino que me fez gostar de literatura.
Vieram outros livros, autores e textos que se tornaram meus (“O Fio da Navalha” de Sommerset Maughan, Drummond, Hemingway, Raduan Nassar, “O Primeiro Homem” de Camus, “Os Amores Difíceis” de Ítalo Calvino, “A Insustentável Leveza do Ser” de Kundera, “Memorial do Convento” de Saramago e, recentemente, “A Invenção da Solidão” de Paul Auster), descobri outros personagens com os quais me identifiquei em diferentes momentos, amei certas mulheres dos livros (Maria Madalena, Blimunda, Sofia, Hannah, Antonieta), odiei outros personagens; porém, nenhum destes livros (com exceção, talvez, de Paul Auster) me disse tantas coisas que levo há tanto tempo.
O medo de viver algo semelhante ainda me toca. Mas isto, hoje, me parece de menos. De alguma forma, todos vivemos a descoberta de Eduardo Marciano: a de que estamos sós, sempre, e de que a vida se esvai no tempo. Porém, esta descoberta não é o fim, pelo contrário: é dela, e somente nela, que se pode ter a real medida do valor do outro, seja ele um marido, uma amante, um amigo, uma filha, um pai. Com Eduardo Marciano, aprendi que a descoberta do outro passa pela invenção da própria solidão. Se consigo aplicar esta lição a minha vida, aí é outra história...
Enquanto escrevo estas linhas, muitas e muitas pessoas me vêm à mente. Gostaria aqui de lembrar de três: o Romeu, o João e o Andrew, meus colegas de Colégio Militar, turma de 1988. Éramos, os quatro, curiosos entre livros e nos reuníamos todos os dias, no “recreio”, na biblioteca do Colégio, cuja bibliotecária, Maria Helena, nos incentivava a leitura. Ficávamos, durante os vinte minutos do intervalo, ali, nos corredores da biblioteca, conversando sobre tudo. Lembro de como me impressionava a cultura literária de João, um ano mais velho do que eu, mas que, aos meus olhos, parecia ter lido tudo. Foi de João que ouvi, pela primeira vez, a história de um livro onde o personagem se transformava numa barata. O autor se chamava Kafka e era “importante”. Alguns dias depois, sem meus colegas por perto, emprestei uma edição que trazia dois contos de Kafka, “O Artista da Fome/A Construção”. Dormi durante a leitura, achei chato e, envergonhado, devolvi sem terminar de ler o primeiro conto sequer. Foi de João que ouvi pela primeira vez a história de Rodrigo Cambará. No Colégio Militar, havia uma edição em sete volumes do “Tempo e o Vento”, do Érico Veríssimo. João, para o meu espanto, já havia lido o épico inteiro. E nos contava histórias e mais histórias dos Cambará. Destas, me lembro perfeitamente do personagem Licurgo, que João sempre citava. Nesta época, em 1986 ou 87, a Rede Globo apresentou uma adaptação do livro de Veríssimo. Rodrigo Cambará, obviamente, era Tarcísio Meira, o galã da época. Ana Terra era Glória Pires e Licurgo era vivido por Armando Bogus. Até hoje, se vejo alguma foto ou imagem deste ator, lembro de meu amigo João. Foi por ele que ouvi pela primeira vez referências a diversos autores: Thomas Mann, Kafka, Borges, Proust, Guimarães Rosa. Curiosamente, não me lembro de ter ouvido algo sobre poesia. Enfim, João foi uma espécie de guia literário para mim e minhas primeiras descobertas se devem a ele. Eu tentava ser como ele, embora, para meu desespero, não conseguisse ler como meu amigo. Para mim, ele realmente lia e eu tentava seguir seus passos.
Lembro de uma vez, sozinho na biblioteca, pegar a “República” de Platão. João havia falado do livro e tinha me deixado curioso. Quando fui emprestar, Maria Helena me olhou e disse:
- “Allan, tem certeza que vai este? É meio pesado pra você. Não é fácil de ler não”.
Eu, todo metido, não me fiz de rogado:
- “Não. Eu posso ler sim”.
Levei o livro e saí da biblioteca morrendo de vergonha pela reprimenda, mas também desafiado a ler o livro todo. Uma vez mais, falhei no meu intento, e li apenas umas vinte páginas. A idéia de ler um daqueles livros importantes por inteiro (líamos obras infanto-juvenis para a aula de português) era, de certa forma, o que me desafiava. Mais do que entender, aproveitar as palavras, era chegar até o fim o que me motivava. Hoje percebo que deixei de ler muita coisa bacana devido a este intuito. Mas também não é justo me julgar vinte anos depois. As linhas podem ter sido tortas, mas minha curiosidade com os livros veio assim. E isto devo muito a João, que sem saber, me despertou esta curiosidade com os livros. E uma curiosidade que segue o meu próprio ritmo..
De Romeu e de Andrew tenho outras lembranças. Romeu me mostrou Júlio Verne e livros de ciências. Ele gostava muito deste tipo de texto e lembro de ter lido “Viagem ao Centro da Terra” (inteiro!) em uma edição emprestada por ele. Lembro de associar muito Romeu à idéia de ciência (hoje, músico e jornalista, talvez ele odiasse ler isto...). O pai de Romeu era engenheiro e o incentivava com coisas científicas. Lembro que Romeu tinha um microscópio em casa. Um microscópio! Ir à casa de Romeu, lembro, era como ir a uma feira de ciências. Pai engenheiro e um microscópio: isto me impressionava demais! Eu morria de inveja.
Não me lembro de Andrew ter me mostrado algum livro. Mas lembro que estudávamos juntos na casa dele, próximo a onde hoje é a Faculdade de Artes do Paraná. A casa era silenciosa e ele era concentrado nos estudos. O pai de Andrew era professor de inglês (ele era britânico) na universidade e eles falavam em inglês entre si. Eu achava aquilo o máximo do intelectual. Além disso, Andrew era o melhor aluno da nossa turma. Me lembro muito de tardes e tardes em que estudamos juntos para provas de matemática (do temido professor Altemir). Havia na casa de Andrew um mural com gravuras dos reis ingleses. Coisas de intelectuais, eu achava... E assim como na casa de Romeu, eu sentia inveja, pois tudo isto era muito distante da minha casa, onde minha mãe via novela das oito e meu pai ia à mercearia da esquina – a mercearia do “seu” Nelson – tomar cerveja e uma cachacinha. Minha casa era um alarido só e não havia aquele silêncio da casa de Andrew. Aos meus olhos de onze ou doze anos, a casa dos outros era sempre melhor.
Pois foi João quem, num dia qualquer (de 85 ou 86, não lembro), sacou de uma das estantes da biblioteca um livro e abriu numa página qualquer. Leu uma passagem onde um grupo de alunos se pergunta sobre a vida sexual da professora. Um deles perguntava (sobre o namorado da professora): “será que ele enfia nela?”. Lembro de ter ficado muito impressionado com tal passagem. Lembro do meu tesão. “Será que ele enfia nela?”. Fiquei tão surpreso de ver uma frase assim num livro “sério”. Lembro de ter pensado tanta coisa: na professora de Geografia (minha utopia e fantasia sexual...), na Josiane (minha amiga de bairro e que foi, talvez, minha primeira “paixão” e, obviamente, minha primeira dor-de-cotovelo...). Mas, sobretudo, lembro do meu tesão. Vi que o livro se chamava “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino. Dias depois, emprestei o livro na biblioteca. Obviamente, escondido, para ninguém saber que eu ainda não havia lido.
Reconheci meus pais. Reconheci o ambiente sufocante da família e da escola. Reconheci minha mãe e seus medos, que à época eu achava tão bobos, em Dona Estefênia, mãe do personagem. Reconheci meu pai no pai de Eduardo – fazendo a barba, terminando e dizendo “uma de menos”. Sofri quando Eduardo rompe com sua namoradinha de infância, isto bem no começo do livro. Ela se chamava Letícia e eu me apaixonei por ela (e obviamente, na minha leitura, ela era a Josiane). Porém, fui cativado por algo no personagem que reconhecia em mim: a sensação de que havia sempre algo a mais em relação a tudo e que este algo sempre me escaparia. Era como se a vida fosse uma procura de algo que não sabemos. Reconheci-me tanto nele que vi sua história como uma projeção da minha. Quando li sobre seu casamento, quis que o meu fosse daquela forma. Seu namoro com a futura esposa (Antonieta) era o que eu queria pra mim (e hoje me pergunto se não o tive). Da mesma forma, tive muito medo de perdê-la como ele a perde. Enfim, era o meu livro e Eduardo Marciano era uma espécie de síntese, de projeção, das minhas ambições e dos meus medos.
Já se vão vinte anos que “O Encontro Marcado” entrou na minha vida. Não tenho mais contato com meus amigos. João e Romeu são jornalistas em Curitiba. Não encontro João há uns cinco anos, pelo menos. Romeu, vez ou outra, o encontro. Mas não convivemos mais. O tempo passou e já não temos mais assuntos, a não ser um passado cada vez mais distante. De Andrew nunca mais tive notícias. A última vez que nos vimos foi por volta de 1991 e ele morava na Inglaterra. Salvo engano, estudava engenharia química.
Olhando mais atentamente, nós três também tínhamos um encontro marcado. Aliás, o livro tem este nome por várias razões, sendo a mais imediata o encontro que Eduardo, Hugo e Mauro (que a mim, me lembram de amigos mais recentes), colegas do Liceu, marcam para depois de quinze anos da sua formatura. Assim, como no livro, porém, percebemos que, em um determinado momento, a vida não se conta senão em anos e o encontro mais importante que temos não é entre nós, mas com nós mesmos. Acho que era esta a procura que eu reconhecia no personagem: a procura de si. Hoje, quando lembro de pessoas que passaram pela minha vida e, sobretudo aquelas que foram marcantes, não posso deixar de pensar que todas me deram algumas pistas desse encontro comigo mesmo. É delas, de amizades findas, de amores vividos, de distanciamentos silenciosos, de perdas e ganhos, que o salto entre a procura e o encontro, tão tênue e, que se desfaz a cada momento, é vivido. Com elas, aprendi o sentido de uma frase do livro, que sempre me instigou e que foi usada como capa numa das suas edições (e que peguei como subtítulo do blog...): “fazer do medo uma escada, da queda um passo de dança, da procura um encontro”.
terça-feira, outubro 23, 2007
Fragmentos Mínimos de um Sábado
Hoje chove. Apenas. O dia está cinza e um violoncelo toca uma melodia de Bach. Levanto-me e vou à janela. Um casal passa correndo entre árvores, marquises e poças. Eles param. Ela leva sua mão ao rosto dele. Trocam algumas palavras. Brigam. Ofendem-se embaixo da chuva e ao som de Bach. Meus olhos seguem cada gesto do casal, cada palavra, cada sinal. De repente, um deles se vai e o outro fica. Imóvel, suspenso, vendo apenas alguém que ama se afastar, se afastar, se afastar. Perdem-se de vista. A moça senta no meio-fio e chora copiosamente.
Volto os meus olhos para o quarto e silencio Bach. Certas lágrimas não admitem outros sentidos.
Agora o velório se arrasta e poucos conhecidos chegam para prestar sua homenagem. A viúva mira o caixão e sente um desejo enorme de que tudo termine rápido. Não suporta aquelas pessoas, os filhos, aquelas roupas, aquela compaixão. Lembra, por um segundo, de um outro velório, há anos, em que fora com o marido e resolveram escapulir para uma praia próxima, onde se empanturraram de sol, camarão e caipirinhas. Beberam em honra do defunto. “Um imbecil”, segundo os dois.
Quando Helenice tomou o último tapa, a única coisa em que pensava era estar longe dali. E, de alguma forma, estava mesmo. Jorge não sabia, mas se prestasse atenção nos olhos da esposa, saberia a falta que ela sentia do pai, que também a espancara várias vezes na vida. Porém, o pai jamais se desculpara.
No boteco do Japa é possível encontrar os bêbados do Juvevê, o pastel mais engordurado, o marido enfastiado, o torcedor sem esperança, o estudante vagabundo, a garota que tem dois namorados, o alcoólatra de balcão, o casal mais íntimo. É também o único lugar de Curitiba onde o guardanapo tem a inscrição “inseminação artificial”. No boteco do Arlindo, é possível encontrar o estudante de sociologia, o fã do Art Brut, o jornalista pé-rapado, a garota multi-piercing, o hippie inveterado. É também o único lugar de Curitiba onde há quadros de Garrincha por todo lado. Mesmo assim muitos fregueses carregam um livrinho de Marx e acham o futebol um dos “ópios do povo”. No bar do Dante, a barriga é obrigatória, e no Santa Rita de Cássia mulher só entra se estiver impressa em pôster de cerveja.
Desdete não se conforma que a patroa lhe dê trabalho aos sábados. Assim, tem que acordar cedo, sair daquele fim de mundo, pegar dois ônibus até chegar à casa onde trabalha. Por isso mesmo, não se cansa de dar uns cascudos na filha da patroa logo que esta vai às compras. Adora descontar sua raiva naquela criança entojada.
Quando os dois terminaram, exaustos, ficaram em silêncio. O quarto era apenas a luz fraca do fim de tarde e os barulhos dos outros casais em quartos vizinhos. Não sabiam há quanto tempo estavam ali e tampouco se lembravam de que eram tio e sobrinha.
Nesse momento, em Curitiba, há dois estupros em andamento, há alguns casais que se amam, há vários bares cheios, há uma garoa que insiste, há um frio que resiste, há alguém escutando Troilo, há um leitor e um Vinícius, há uma gestante que espera, há várias coisas que são belas e outras tantas que nem tanto.
Volto à janela. São seis horas da tarde e a noite se aproxima. Bach volta a ecoar pelo quarto. Penso no que desejava escrever e naquilo que escrevi. Penso no que desejava para o meu sábado e naquilo que ele foi. Sábado, o dia do descanso ou o dia da criação? Não importa: sábado é o dia em que Deus resolveu ser generoso consigo mesmo.
domingo, outubro 21, 2007
A Aventura de um Leitor V - fim
terça-feira, outubro 02, 2007
A Aventura de um Leitor IV
A Aventura de um Leitor III
domingo, setembro 30, 2007
Aventura de um Leitor II
sábado, setembro 29, 2007
A Aventura de um Leitor I
quarta-feira, julho 18, 2007
Clarice
Vuuuuu Há ecos vindo da rua Vuuuuu Clarice tem os pés mergulhados no sons Lembra de uma música que gosta “Como desaparecer completamente” Um violão e uma voz triste “Eu ando através dos muros” Balança os pés Brancos como lírios Pensa em uma balança onde poderia soltar os pés ao largo do movimento “Eu ando através dos sons”
Fixa os olhos num ponto distante Vê fogos de artifício em algum bairro longínquo As luzes sem som são lindas Cores quase neutras de distantes Deseja estar lá Os bairros distantes são repletos de pessoas que nada mistificam da vida Vivem simplesmente Os fogos duram minutos e Clarice os observa Silenciosas luzes mudas do subúrbio
As luzes cessam e os olhos ouvidos poros pele de Clarice são consumidos pela noite É outono e suas lembranças a remetem a uma primavera distante Foi feliz um dia Havia alguém Agora é apenas noite e Clarice se descobre só somente só
Ouve uma voz Estanca Procura e descobre a calçada De novo o quadro da rua e seus pés balançando na escuridão Clarice se delicia com os próprios pés Já não sabe mais o que é a noite os pés os lírios o vento Vuuuuuu A calçada a chama Vuuuuu
“Esta não sou eu” balbucia Lembra de uma voz numa primavera distante Clarice amava ouvir a voz de alguém no início da noite Clarice amava alguém no fim do dia Clarice amava
“Pedro” “Pedro” “Pedro” Três vezes ela repetiu o nome que nunca mais pronunciara Agora era seu coração que a chamava
Vuuuu Ouve a voz da calçada uma vez mais A última vez Pés brancos como lírios
Apenas um mergulho no escuro da noite Vuuuuuu
Anos depois, algumas pessoas que andavam por aquela rua estranhavam aqueles dois lírios entre os vãos das pedras na calçada.
segunda-feira, julho 02, 2007
Passatempo
Hoje estou vivendo um destes momentos. Já varri a casa duas vezes, escutei Beatles, fui à janela e enchi a paciência do João, que está aqui próximo. E nada. Nenhuma idéia. Nenhum mote. Sobre o que escrever?
Como dizem que, nestes momentos, deve-se escrever somente e deixar a imaginação à vontade, resolvo então criar uma cena. Um casal em um momento de intimidade. Tema já desgastado, é verdade. Mas um casal sempre dá margem para boas estórias. Poderia ser um casal em crise. Mas isto seria triste e, como sou romântico, prefiro o momento de intimidade. Isto até dá margem para um texto picante. Quem sabe?
Um casal. Penso em nomes compostos: Maria Lúcia e Paulo André. Será que funciona? Não sei. Tudo vai depender do desenrolar da cena. Vamos ver.
Quando Maria Lúcia disse no seu ouvido “vem”, Paulo André sentiu pela primeira vez, naqueles quatro meses de casamento, aquela preguiça básica. Não que tenha perdido a libido em relação à esposa. Longe disto. Ainda ontem mesmo eles tinham tido uma noite ótima. “Então”, pensou, “já está bom, né?”. Ele até queria, mas se pudesse ficar parado, sem se mexer muito, seria melhor. Enfim, estava com aquela preguiça em relação ao que já é rotina, aquela lentidão diante do que é familiar. Quem nunca sentiu isto que atire a primeira pedra. Ora, caro leitor, chegue mais perto e diga, só pra mim: nunca teve preguiça de algo que faz todos os dias? Preguiça de levantar da cama e ir para o trabalho? Preguiça de lavar a louça? Então, por que criticar o pobre Paulo André por estar com preguiça de... fazer exercício à noite? E ainda mais um exercício que ele vinha fazendo com freqüência? Sejamos compreensivos com o moço.
Mas será que Maria Lúcia entenderia?
“Vem”, repetiu.
PAUSA: vamos fazer um pacto, caro leitor. Estou pensando numa Maria Lúcia ninfomaníaca. Tem
que ser uma ninfo senão o texto não funciona. Pode ser? Uma ninfo insaciável. Devoradora. Fisicamente pode ser de qualquer jeito. Eu, particularmente, sempre que penso numa ninfo penso em uma mistura de Nastaja Kinski em “Paris, Texas” com Angelina Jolie em qualquer filme. Nunca soube o porquê, mas as duas sempre me deram medo, como se nunca cansassem de sexo. Porém isto não importa e, além disto, não quero influenciar seu pensamento. Pense na ninfo que você quiser. Pensou? Está certo que Maria Lúcia não é nome de ninfomaníaca. Uma ninfo de apelido Malú? Não dá. É muito docinho. Mas já estou adiantado no texto e mudar agora seria um trabalhão. Peço desculpas por esse deslize. Enfim, uma Maria Lúcia ninfomaníaca. Combinado? Então, retornemos ao mais importante.“Vem”, repetiu.
Não, Maria Lúcia não entenderia sua preguiça. Ela gostava muito de sexo. Ela nunca cansava e os dois ficavam horas naquilo. Ele jamais vira uma mulher com tanta aptidão. Nos primeiros dias do casamento ficara até assustado, pois ela não era daquele jeito enquanto namoravam. No começo achou muito bom. Mas já eram quatro meses naquele ritmo e a vida exigia outros afazeres e ele era trabalhador e estava ali deitado. Sem sono, é verdade, mas deitado. Enfim, estava com a dita preguiça.
MAIS UMA PAUSA: O leitor mais atento deve estar se perguntando: “mas como alguém tem preguiça de fazer sexo?”. Não é isto. Ele não estava com preguiça do sexo propriamente dito. Não nos precipitemos nos julgamentos. Ele estava querendo ficar ali, apenas. Entenderam? Ali. Era uma preguiça digamos... da vida... Ora, caro leitor, não faça muitas perguntas. Você já entendeu.
Outra coisa: alguém pode estar pensando “será que esse João Pedro de Andrade escreve a partir da própria experiência?” A resposta é não. Eu sou de Minas Gerais e, como todos sabem, mineiros não sentem preguiça. Além disso, eu jamais me retrataria com um nome de novela como Paulo André. Por favor!? Se não confiam na minha capacidade literária, pelo menos confiem no meu bom gosto para comigo mesmo.
Voltemos.
Paulo André resolveu então apelar para um estratagema que funcionara em sua vida amorosa passada: fingiu que não era com ele. “Quem sabe assim ela desiste”, pensou. Fingir-se de morto. Resolveu ficar quietinho. Maria Lúcia veio então para cima dele, usando a clássica tática dos beijos no pescoço seguidos de aliciamentos nas partes pudendas. Maria Lúcia era uma mulher decidida. De ações imediatas. Beijos e aliciamentos. Mão aqui e mão ali. Mas Paulo André, mesmo não sendo sertanejo, era um forte. Agüentou incólume. Resistente. Tenaz. Fechou os olhos e se concentrou na sua preguiça. Era uma daquelas preguiças de quarta à noite, no inverno. Daquelas onde a cama já estava quentinha quando Maria Lúcia viera deitar. Não era uma preguiça qualquer, era uma preguicinha. O que era melhor ainda.
Maria Lúcia continuava ali, nos beijos e mãos e apertos e cheiros. Ela era ótima nisto, o sonho de qualquer homem. E pior: era tinhosa. Não desistia assim tão fácil. E percebendo que suas ações não surtiriam efeito, resolveu baixar o nível, quer dizer, o local dos beijos.
Paulo André sentiu um frio na barriga. Ou melhor, uma lambida na barriga. Neste momento percebeu que era preciso fazer algo, uma reação capaz de interromper aquela tentativa que ele, escaldado, sabia onde ia parar. Ele iria acabar cedendo. Agora era uma questão de princípios. Resistiria.
Assim, virou-se e deitou-se de bruços.
PAUSA: perdão, mas aqui não resisto a um comentário. Porém, este comentário destina-se ao leitor, respeitando o artigo o. Então, por favor, a leitora dê um tempinho na leitura deste texto. Vá à cozinha pegar um copo de leite, uns aperitivos. Que tal ir à janela para ver o movimento da rua? Enfim, inventa alguma coisa porque a conversa agora é entre homens.
Caro leitor, uma das coisas mais dignas de atenção é a imaginação feminina e sua capacidade de inventar labirintos de idéias e pen
samentos. O ponto é interpretar estes pensamentos. Deve-se, para isso, atentar para os sinais. O problema é que existem milhares deles: o tom da voz, o movimento da sobrancelha, o beicinho, ou até mesmo, a conjunção de Júpiter com Plutão num ângulo de 62° em relação à Lua. O sucesso com as moças depende da capacidade masculina de interpretação. E ai daquele que descobrir errado. É ou não é algo espantoso? E tamanha complexidade não poderia ficar de fora deste texto. Em suma: quero dizer que nada é simples com Maria Lúcia. E pior: é uma daquelas mulheres bem criativas...Assim, até para o melhor usufruto do texto, imagine uma Maria Lúcia cheia de criatividade. Pensou? Então vamos lá.
Aguardemos um pouco a volta da cara leitora.
Retomemos.
Assim, virou-se e deitou-se de bruços.
Maria Lúcia estranhou este gesto. Num primeiro segundo, não entendeu e ficou, por um instante, olhando para o marido. Mas já no outro segundo, percebeu a proposta. “Paulo André? Você?”, disse. Jamais esperara isto do marido. Mas não achou ruim. Pelo contrário, até gostou da idéia. Como ela não era uma mulher de se fazer de rogada, e estava aberta a novas experiências, não perdeu tempo.
Paulo André achou que tinha resolvido o assunto e salvo a honra da sua preguiça. Mas eis então que sente algo viscoso como uma língua na base das suas costas. E pior: avançando a lambidas firmes rumo ao desconhecido. O pânico tomou conta de Paulo André. Era preciso pensar em algo rapidamente. Questão de segundos. Um minuto talvez. E a língua ia descendo. O que fazer?
PAUSA: eu mesmo que estou escrevendo fiquei surpreso e nervoso com esta iniciativa de Maria Lúcia. Que angústia! Estou na dúvida do que fazer. Preciso salvar o meu herói. Talvez um ataque de espirros por parte de Paulo André? Isto o salvaria com certeza. E também seria uma boa saída, pois daria ao texto um toque ao estilo de alguns cronistas brasileiros dos quais gosto, como Fernando Sabino, Stanislaw Ponte-Preta ou Luís Fernando Veríssimo. Eu poderia, inclusive, homenagear este último, fazendo com que Paulo André pulasse da cama cantando o hino do Inter de Porto Alegre.
Mas não sei. Estou na dúvida. Já está galhofeiro demais este texto. Talvez um final mais intelectual salve o escrito. Uma possibilidade é pensar em como alguns escritores célebres resolveriam o meu dilema. Por exemplo:
Edgar Allan Poe: Paulo André vira-se rapidamente e, com uma faca, que estava sob o travesseiro, corta a língua e o pescoço de Maria Lúcia e esconde o corpo dentro da parede da casa.
Kafka: a polícia invade o quarto e prende os dois sem que eles saibam o porquê.
Garcia Márquez: Paulo André sai flutuando da cama, encarna seu tataravô Aureliano Buendía e vai para a Colômbia derrubar o presidente do país.
Borges: Paulo André diz “CHEGA!” em sânscrito, língua que ele aprendeu lendo os livros antigos de um relojoeiro nascido em Antioquia e que vendera sua biblioteca para um sebo localizado próximo à Plaza de Mayo.
Marquês de Sade: Paulo André se anima, pega um par de algemas, um grampeador, dois alicates e um abridor de garrafas, e ainda pede para Maria Lúcia chamar umas amigas.
Hemingway: Paulo André resolve sair e beber todas.
Emile Zola: Paulo André é salvo pelo despertador, que toca e lembra a ele e à Maria Lúcia que é hora de ir para a mina de carvão.
Camus ou Sartre: Paulo André começa a chorar compulsivamente diante do absurdo daquela situação, onde ele não era ninguém e nada daquilo tinha sentido algum.
Nelson Rodrigues: Paulo André fecha os olhos, se entrega à língua de Maria Lúcia e pensa no seu sogro.
Realmente, as possibilidades são inúmeras. Tantas que talvez o melhor seja dar autonomia aos personagens. Dizem que um texto é bom quando ele vai além de quem escreve. Deixo então a estória nas mãos (ou na língua...) dos seus protagonistas. Pensando bem, eles é que são os maiores interessados. Por que então fico aqui me metendo no momento de intimidade deles? Eles que se resolvam. Por isso mesmo, se o final não for a contento, a culpa não será minha. Inclusive, eu confessei no início que não sabia sobre o que escrever.
O que fazer?
Paulo André resolveu dizer chega.
- Lucinha, me escuta!
- Hum... – lambidas.
-Lucinha, me escuta!
- O quê, Paulo André?
- Eu estava pensando... Hoje não. Não estou muito disposto.
- ... -
- Pode ser amanhã. Que é que você acha?
- Amanhã?!
- Sim, amanhã. Hoje eu queria ficar assim, agarradinho, sem fazer nada. Que tal?
- Não.
Agora cabe a Paulo André descobrir o que significa este "não".
quinta-feira, junho 28, 2007
Rave
João amava Raimundo que ficava com Maria que curtia um lance com Lili que amava Joaquim que não amava ninguém.João virou pastor evangélico, Raimundo abriu uma loja de piercings, Maria virou funcionária de banco, Lili viciou-se em crack e Joaquim casou-se com J. Pinto Fernandes, que durante muito tempo se chamou Juliana, mas fez operação para mudança de sexo e atualmente atende por Júlio...
segunda-feira, junho 25, 2007
O goleiro e sua condição
Belezas são coisas acesas por dentroTristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Jorge Mautner
33 minutos. Segundo tempo. Voz de radialista:
...cobrou agora Juvenal. Direto, sobre a área. Salta Chico. Não alcança a bola. Mas ficou ainda do campo contrário. Cruzou à boca da meta! Aliviou Gambetta! Vem para Bauer. Bauer aparou o couro no peito. Tentou passar por um contrário. Atrasou para Jair. Jair então infiltra-se. Empurrou o couro. Defendeu Tejera. Voltou para Danilo. Danilo perdeu para Julio Perez, que entregou imediatamente na direção de Míguez. Míguez devolveu a Julio Perez, que está lutando contra Jair, ainda do campo uruguaio. Deu para Ghighia. Ghighia devolveu a Julio Perez que dá em profundidade ao ponteiro direito. Corre Ghighia! Aproxima-se do gol do Brasil e atira! Gol! Gol do Uruguai! Segundo gol do Uruguai. Dois a um, ganha o Uruguai...
Ele se levanta lentamente e observa a comemoração dos uruguaios. Mantém, por um segundo, a cabeça baixa, como a pedir perdão por aquele momento. E aquele momento era um momento de silêncio, uma espécie de funeral repentino que tomara todo o estádio, que silenciara o pagode infernal que se estendia desde a manhã, como se o estádio obedecesse a um interruptor cuja posição fora invertida. Ouviam-se apenas os gritos uruguaios. A imagem daquele dia: onze jogadores silenciando duzentas mil pessoas. Mudas. Estáticas. Suspensas.
E todos os silêncios e todos os olhos e todas as preces e todos os ódios, malefícios e mandingas, bençãos e orações, voltaram-se para aquele goleiro de 29 anos que, sozinho (como ficaria o resto da vida), agora estava de cabeça baixa, como que a ouvir a uma sentença.
E nos doze minutos restantes do jogo ele ficaria ali em silêncio, solitário ante aquele mar de gente, observando o jogo de longe e torcendo, como um espectador, um ouvinte em Quixeramobim, um transeunte na Praça da Sé, um devoto em Juazeiro ou um marido qualquer no balcão de um bar perdido do Centro, por um gol, um mísero gol que evitasse a tragédia que se prenunciava. Ele, tão importante no jogo, nada podia fazer a não ser observar de longe e torcer, torcer, torcer.
E nesses doze minutos que, conforme as leis físicas que regem o futebol, passaram como se fossem doze segundos – porque o time estava perdendo – ninguém no estádio percebeu que ele jogou de olhos marejados e que toda sua vida lhe viera à mente como num filme desbotado, preto e branco, porém nítido. Todas as cenas, desenlaces, ganharam naqueles doze minutos, uma nova exibição. Enquanto o jogo se concentrava no outro lado do campo, naquela tentativa desesperada do time para reverter a situação, e onde o outro goleiro se tornava o novo herói de uma nação minúscula, ele passava em vista todos os lances da sua vida.
Nunca se sentira tão só em toda sua vida. Mesmo com duzentas mil pessoas em volta, era ele e mais ninguém.
Lembrou da infância em Campinas, do futebol entre os amigos, da sua predileção pela ponta-esquerda, dos primeiros bicos e do seu emprego no laboratório de química, onde se revelou um ponta do time da empresa. Lembrou da sua chegada em São Paulo, para começar sua carreira no Ypiranga onde, por acidente, tornara-se goleiro. Lembrou da estréia no Vasco e dos milhares de gols que evitara; dos títulos que conquistara com o time do Rio e das manifestações de gozo da torcida. Lembrou das derrotas, dos xingamentos a que se acostumara. E diante destas lembranças percebeu como amava aquilo tudo, como o futebol dera o sentido da sua vida e que um dia tudo aquilo lhe estaria distante, no passado.
E, num átimo, lembrou que ali estava no jogo mais importante da história, onde tudo seria dividido em antes e depois. E que aquele gol que tomara minutos atrás seria uma mancha, um estigma, a ser carregada pelo resto da vida. Onde quer que fosse seria declarado culpado, o maior dos traidores da pátria. E, por um instante, imaginou que após o fim da partida ninguém se lembraria do que fizera antes, dos gols que evitara. Ele seria para sempre o goleiro que falhara na hora imprevista, o homem derrotado no momento mais importante. A imagem do fracasso. E de súbito olhou para a torcida e teve a impressão de que todos o olhavam com ódio, desprezo e raiva. Teve, então, a pior sensação que jamais tivera: que, encerrada a partida, caso realmente perdessem, seria banido do mundo, condenado tal como um criminoso a expiar seu crime e que carregaria sobre o ombro a culpa daquele time pelo resto da vida. Viu-se dali a cinqüenta anos expiando um crime num país onde a maior pena possível era de trinta.
Ao pensar isto, o desespero lhe veio como um tiro.
Nesse exato momento ouviu um apito e voltou sua atenção ao jogo. Com um lance do outro lado do campo, ironicamente quando o outro goleiro agarrou o último ataque, a última tentativa daquele time de empatar o jogo, o juiz, britanicamente pontual, deu a partida por encerrada.
Variações Sobre Um Tema
Seus amores serão bons...
De uma canção
Foi um início romântico, como devem ser os amores. Conheceram-se, encantaram-se, trocaram confidências, expuseram medos. Passaram-se alguns anos e o amor transformou-se em convivência e a convivência em impaciência e a impaciência em desespero. Em algum momento, o amor que havia entre os dois transfigurou-se em ausência de palavras. Não havia ofensas, não havia nada, simplesmente a noite. E como a noite, aos olhos dos dois, se confundia com o aquilo mais temiam – a morte – os dois amorosamente se separaram.
Juliana ainda chora a morte de André, num acidente de carro. Estavam noivos há três meses e namoravam havia anos. De tudo que sente falta, o que mais acomete Juliana é o café que o noivo preparava sempre que dormiam juntos. Tomavam café em silêncio, aproveitando de forma terna a luz da manhã que invadia a cozinha. Juliana lembra deste silêncio como se fosse uma tortura: André de pé diante do fogão, o barulho das xícaras, a bebida sendo servida, os olhares cúmplices. Para ela, este era o momento de maior intimidade entre os dois, uma intimidade feito de silêncio, ternura e um café delicioso.
Andréa andava a esmo pelo centro da cidade, pensando se ainda continuaria casada ou não. Há meses sua relação entrara numa ausência de afetos, como se ela e o marido não mais se encontrassem. Não havia culpados: simplesmente os dois estavam longe um do outro. Encontrou, numa rua, por um acaso, Paulo, sua primeira paixão na vida – quando os dois ainda eram adolescentes – e a quem não via há muito tempo. Foram a um café, onde conversaram relembrando do tempo em que conviviam. Durante a conversa, Andréa lembrou o quanto fora apaixonada por Paulo e também das esperanças que, quando jovem, depositava no amor. De súbito, levantou-se, pediu desculpas e correu para casa. Resolveu tentar mais uma vez.
Teresa separou-se há oito anos e sempre que pode maldiz o nome do ex-marido. Há oito anos todas as coisas ao seu redor ainda estão impregnadas com a presença dele. Há oito anos Teresa dorme com dois travesseiros, como se esperasse a volta de alguém. Há oito anos ela ainda faz vários pequenos rituais da época em que estava casada. Inclusive, no dia 17 de outubro, religiosamente, sempre vai ao mesmo restaurante onde ele a pediu em casamento. Simplesmente para maldizer o nome do ex-marido.
Durante meses, Marcos escutava em sua memória as palavras proferidas naquela noite chuvosa: “Eu vou embora, Marcos. Não dá mais pra mim”. E lembrava, de forma vívida, de tudo naquela noite: os olhos tristes de Mariana, a mala sendo fechada, o grito preso na garganta, o vazio da casa quando ela se foi. Apesar da profunda tristeza em que quedava junto destas lembranças, Marcos nunca chorava, como se sempre faltasse uma ponte para as lágrimas. Uma noite, porém, muito tempo depois, ao sentar-se à mesa para jantar, sozinho, Marcos reparou que estava chovendo. Nesse momento, chorou copiosamente feito um menino.
sexta-feira, maio 18, 2007
À Flor da Pele
terça-feira, maio 08, 2007
Memória de Minas

Minas não existe. “Minas não há mais”. Outrora existira na mãe, tagarela e desconfiada, avessa a essas coisas estranhas dos modernos, e dada a uma sorte de devoção. Nossas Senhoras de todas as faces. A mãe de fofocas e pequenas aliterações – “Menino, meu fio” – e grandes dramas – “Mata sua mãe de vez, mata!”. Mãe de pequenos pratos: o arroz branco impossível de copiar; da couve, que em vidas passadas agradava tanto o paladar de uma outra mulher acostumada a temperos fortes; do bolinho de chuva que acompanhava o futebol das tardes de domingo. Mãe de medos absurdos e gargalhadas deliciosas. Mãe das chineladas. Mãe de consolos e colos. Mãe de pedir benção.
Havia na mãe um tanto de Minas.
Outrora Minas existira no pai, capaz de serestas e silêncios. Pai de uma generosidade ímpar e ausências cordiais. Pai da farda e da última palavra. Pai de violões e cantorias. Pai das músicas de Maria Bethânia. Pai dos pequenos prazeres da vida: tão pequenos que eram só seus, como a caipirinha que sempre preparava ao chegar do trabalho, numa cumbuca que ficava no canto da pia. Pai de mínimos, quase imperceptíveis, rituais. Pai de quem nunca se ouviu uma palavra sobre si próprio. Pai dos mistérios. Pai invisível aos olhos de todos. Pai escondido dentro de uma concha. Pai de um passado que ninguém conhece. Pai do silêncio e das palavras cruzadas.
Havia no pai um tanto de Minas.
Em algum lugar, Minas deixou-se ficar. Agora, é apenas memória de um tempo vivido. Minas tem cheiro de infância. Minas é Milton Nascimento cantando “Os Povos”: “na beira da vida a gente torna a se encontrar só”. Minas era o tempo onde se fazia música em casa. Minas é passado.
Havia um tanto de Minas numa família que outrora existira. Pai-mãe-filho numa cidade estrangeira de céu cinza. Em algum lugar pai-mãe-filho deixaram-se ficar. Agora, há pai, há mãe e há filho: cada um na beira da vida a se encontrar só.
Minas é a lembrança de uma família que, em algum lugar, deixou-se ficar.
domingo, abril 29, 2007
A Poesia e a Prosa
Assim como amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
Caetano Veloso
Quando Luís roubou um beijo de sua nova amiga, ela tomou um susto. Ela já havia percebido que ele estava apaixonado. Mas Luís não era um homem aos olhos de Lenita. Não no sentido do que lhe apetecia. Lenita preferia homens mais velhos, que lhe davam uma sensação de segurança. Luís, na sua meninice, não lhe dava isto. Mas lhe dava algo mais caro: uma paz, um sentimento esquisito de sossego, algo quase familiar. Era como se ele tocasse um lado do seu coração interditado aos homens. O seu lado mais íntimo. Por isso mesmo, Lenita o empurrou e disse não.
Quando Clarice pensa no ex-marido, sente falta de muitas coisas, mas sobretudo dos amigos comuns que teve que abandonar quando se separaram. Alguns, mais amigos dele, ela os queria para si.
André negou o quanto pôde, mas um dia teve que admitir para si próprio que estava apaixonado por Lúcia, namorada de seu amigo de infância, Vinícius. André era o oposto de Vinícius. Onde este era palavra e extroversão, André era timidez e silêncio. Lúcia, às vezes, achava que André era gay, mas gostava de sua companhia. Quanto a Vinícius, na sua leveza, traía Lúcia sempre que podia e confidenciava tudo ao amigo.
Quando os dois se separaram, ela achou que poderiam ser amigos. Durante um tempo o procurou. Em vão. Ele se afastou dela como se sobre ela houvesse um tabu. Levou muito tempo para ela perceber que entre eles não havia possibilidade de uma relação que não fosse amorosa. Ela sofria em perceber que ele tinha virado a página e ela não.
Se Marco e Milena fossem amantes, as confidências tomariam a forma de corpo. Seriam sensíveis: teriam cheiro, suor e tato. Amantes, poderiam simplesmente silenciar ante a presença um do outro. Palavras não seriam suficientes para a confluência que buscavam.
Se Marco e Milena fossem amigos, as confidências seriam segredos falados, compartilhados. O corpo seria apenas uma promessa nunca realizada e tudo se resumiria num afago em forma de verbo.
A poesia ou a prosa? Nem Marco, nem Milena, tinham a resposta a esta pergunta.
sábado, abril 14, 2007
As Linhas das Tuas Mãos

quinta-feira, abril 12, 2007
Breves Textos para John Coltrane
Poucas coisas são mais deliciosas do que tomar um cappuccino num certo café do centro numa tarde de outono. Parar tudo o que se deve fazer e simplesmente saborear o café e o aroma; o café e a canela; o café.
O quarteto de John Coltrane tocando “Naima”.
Ele sentou no café árabe aonde sempre ia e descobriu que a senhora da mesa ao lado chamava-se Naima. Ela, marroquina e ele, paraense. E ali estavam os dois, reunidos numa mesa de café numa rua perdida do centro. Conversaram durante horas. Finda a tarde ele foi para casa e simplesmente ouviu a gravação várias vezes.
O quarteto de John Coltrane tocando “Mr. Knight”.
Em Curitiba há uma praça onde há dois plátanos. Sempre que passava por ali, ele tinha vontade de dançar. Já imaginaram? Um moço de óculos, meio perdido, porém de boa vontade, dançando numa praça com plátanos?
O quarteto de John Coltrane tocando “Acknowledgement”.
Maria vai todos os dias à Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. É uma igreja bonita, acha Maria. Fica ao lado de um campo de futebol num bairro bacana de Curitiba. Ao lado da igreja há um cemitério. Maria não gosta de cemitérios, mas acha tocante ver as pessoas sentadas na mureta fora da igreja nos dias em que a missa está cheia. À propósito: Maria não é das mais crentes. Na verdade, ela trabalha ali, na rua defronte a igreja, vendendo doces para as pessoas nos intervalos das missas.
O quarteto de John Coltrane tocando “In a sentimental mood”.
Laércio já conhece de cor a maioria dos balcões do centro da cidade. Solteiro há anos, Laércio vive desesperado sua solidão. Uma solidão feita de cobertores velhos, casca de pão sobre a mesa da cozinha, poemas de T.S.Eliot e medo. Muito medo. Laércio está apaixonado, o que piora tudo. Sim, porque se apaixonou, uma vez mais, por alguém que não lhe dá a mínima. E pior: quando se apaixona e vive seus dias num modo sentimental, os balcões lhe parecem pouco, quase nada.
O quarteto de John Coltrane tocando “Equinox”.
Hoje ele cantou parabéns para seu irmão, pelos seus quinze anos. Ele, seu irmão e a mãe, já senhora. Era início da noite e a casa tinha cheiro de pão e novela. Ele levou um bolo de chocolate, velinhas e pequenas cornetas, com as quais assustaram a pequena cadela da casa. Arrependeu-se de não ter comprado chapéus e línguas-de-sogra. Sentaram os três na mesa e, por alguns minutos, encarnaram o que tentavam ser a vida toda: uma família. Durou alguns minutos. O suficiente para que um sentimento de cumplicidade trespassasse entre os olhos. Ele viu seu irmão criança. Ele viu sua mãe jovem. E agora, estavam ali, os três, somente, comemorando o fato de um deles estar avançando no tempo: bolo de chocolate, velinhas e, talvez, a esperança que ele gostaria de dar ao irmão.
O quarteto de John Coltrane tocando “My favorite things”.
Para João, esta música revela o lado possível, porém oculto, da vida.
O Prazer da Prosa (aforismos da conversação)
I
O ato da conversação exige, antes de tudo, entrega. E o entregar-se à conversa é um deslizar-se entre dois pontos: dentro e fora de si. Isto é para poucos. Portanto, poucos são aqueles que conversam.
II
O ato da conversação exige delicadeza dos gestos e gentileza das intenções.
III
O ato da conversação exige sentido de espaço e tempo. Há lugares e horas para a conversação.
IV
O ato da conversação é, talvez, a forma mais sutil de relação entre duas pessoas. Exige cuidado e exercício constantes.
V
O ato da conversação é uma invenção de pessoas do interior para o domingo à tarde. Pequenas cidades do interior de Minas ou de São Paulo comprovam isto.
VI
O ato da conversação é vedado a certas profissões. Por exemplo: a músicos, porque não sabem ouvir, ou a jornalistas, porque falam do que nunca ouviram
VII
O ato da conversação também pode ser praticado solitariamente. Neste caso, por favor: não pertube.
terça-feira, março 27, 2007
Pequeno Dicionário dos Afetos: Curiosidade
s. 2 gên. (1) sentimento de necessidade de descoberta das coisas ou de detalhes da vida alheia. Pode vir na forma de perguntas insistentes, como em alguns homens, ou na forma de um olhar blasé, como em analistas fora do consultório. É mais comum numa certa fase da vida, sendo crônica entre os 20 e os 30 anos. (2) sentimento muito comum em pessoas encantadas por outra. Neste caso, pode levar a um estranho hábito de questionamentos e perguntas constantes, ou ao desejo de proximidade intensa, traduzido em mensagens e encontros fortuitos. Se for o caso de pessoa apaixonada, aí a curiosidade pode chegar a níveis alarmantes. Tende a passar com o tempo, embora haja o perigo de se transformar em neurose motivada pela paixão crônica. (3) sentimento que todo bom marido, amante ou homem apaixonado deve evitar, sob pena de prejuízo e dores de cabeça. Há coisas que é melhor não descobrir, sobretudo sobre o passado... (4) loc. pop. sentimento que matou o gato.Sinonímia: Revistas em salão de cabelereiro.
Antonímia: Maridos felizes.
sábado, março 03, 2007
Solo de Trompete
Estanco meus passos e é como se eu tivesse olhos de vidro. De repente, tornam-se embaçados. É noite e uma tristeza sem fim me assalta. Onde estarei?
Estarei solitário amanhã?
E penso, penso, penso.
Sim. Estarei.
quinta-feira, março 01, 2007
Da Luxúria

Pois a luxúria é definida pelos prazeres. É um apego aos prazeres, sobretudo aqueles ligados ao corpo, à carne. Pensando bem, a luxúria é a mãe de cinco dos outros seis pecados capitais. Tomemos como exemplo um objeto de luxúria: a loira do 701, que hora ou outra passa sob minha janela trajando vestes..., como digo?..., generosas. Pois bem, alguém que tivesse este objeto de luxúria jamais sairia da cama: preguiça. Iria ao bar do Japa contar aos companheiros de balcão, “vocês não sabem quem eu faturei...”: soberba. Não iria deixar nenhum engraçadinho se aventurar: ira. Saberia de cor a conjugação (inclusive no futuro do subjuntivo) do verbo comer: gula. Não dividiria a moça com ninguém: avareza. O difícil seria sentir inveja de alguém. Taí! Talvez a inveja seja isto: falta de luxúria ou da loira do 701. Depende do ponto de vista.
O futebol é, por natureza, um esporte para os amantes da luxúria. Assistimos a uma partida de futebol na esperança de ter o prazer de um gol bonito, de uma jogada sublime, de um drible espetacular. Eduardo Galeano, torcedor do Nacional de Montevidéo, soltou a pérola: “o gol é o orgasmo da vida moderna”. Bem..., profundo isto... Não é em qualquer rabeira de caminhão que lemos esta frase, bela e de múltiplos sentidos. Há quem discorde. Mas, como dizem que o orgasmo é uma grande questão para as mulheres, aproveito a deixa para tentar exemplificar às leitoras, pouco entendidas no assunto (futebol, é bom que se frise...), o que seriam os vários tipos de gol. Estarei contribuindo, assim, para a cultura geral da sociedade brasileira.
O gol comum
Esse é aquele orgasmo sem graça. Aquele que você tem, quando tem, naquelas transas de quarta à noite após a novela das oito ou naquelas transas de quarta à noite, no inverno, quando você se apresenta extremamente sensual naquele moleton velho, azul marinho, tamanho GGGGGG. É aquele orgasmo que você nem se lembra no dia seguinte. É mais ou menos como os gols de uma partida entre a Ferroviária de Araraquara e o XV de Jaú, numa quarta à noite, com chuva, pela décima primeira rodada do campeonato paulista da segunda divisão. Não passa nem no Globo Esporte. Ou seja, é melhor virar para o lado e dormir.
O gol roubado
Bem, aí depende. Se for um gol do seu time no principal rival, aos 48 do 2º tempo, numa semifinal de campeonato, o orgasmo será inesquecível. Seria como transar com o marido, com cara de Rodrigo Santoro, de uma conhecida de quem você não gosta. Mas se o gol for contra o seu time, seria como se seu marido dissesse o nome da conhecida enquanto transa com você. Pensando bem, nos dois casos, será um orgasmo inesquecível. Geralmente, um gol roubado causa muita confusão, briga, baixaria mesmo. Sempre termina com gente expulsa do jogo e indo pro chuveiro mais cedo. Mas, sem dúvida nenhuma, são lembrados para o resto da vida.
O gol de canela
Esse é aquele orgasmo que você não espera. De repente, vem. Acontece com freqüência. O jogo estava se arrastando, vinte minutos do primeiro tempo e nada, nem uma bola na trave, você e seu companheiro de partida sem muita inspiração, quando de repente acontece o gol de canela e daí o jogo pega fogo. No futebol, “gol de canela” é aquele gol sem querer. No caso do orgasmo, “gol de canela” é uma metáfora: pode ser um cotovelo que bate no olho, uma goteira sobre os jogadores, um palavrão em homenagem à mãe do juiz ou até mesmo um espirro. As possibilidades são infinitas. Um gol de canela exige oportunismo e atenção dos jogadores, embora eles não sejam capazes de repetir o feito. Mesmo assim, há jogadores que só fazem gol de canela. Jogar com eles pode não ser lá estas coisas, mas que um golzinho sempre sai, isto ninguém pode reclamar.
O gol sublime
Este gol é raro. E é para atingí-lo que todos praticam este esporte coletivo – cujo número de jogadores varia, podendo chegar a 80, dependendo das preferências (society, salão, gramado, areia) – chamado sexo. E por ser raro, este é aquele orgasmo realmente inesquecível. Mas a perfeição, a completude, o ato sublime desse orgasmo só é reservado para poucos. São os chamados craques. Ser um craque exige alguns atributos: visão de jogo, domínio da bola, rapidez de raciocínio, controle da velocidade, resistência e, segundo muitas mulheres, saber usar bem as mãos (mesmo não sendo goleiro). E tudo isto junto numa pessoa só, convenhamos, é difícil. Por isto é que os gols sublimes são os mais lembrados por toda vida. Inclusive, há uma tendência feminina para um certo saudosismo com relação a isto. Para muitas, gol sublime só o Marcão, aquele namorado do tempo de faculdade, sabia fazer. “Ele fazia gol até de nariz”, ouvi certa vez de uma torcedora mais animada.
Como se vê, há tantos gols quanto orgasmos. Aliás, posso dar um caráter científico a esse texto apresentando uma fórmula devidamente comprovada:
QO= 1/NGSTSMNC
onde, QO= qualidade do seu orgasmo;
NGSTSMNC= Número de Gols Sofridos pelo Time do Seu Marido Neste Campeonato
Pois é, cara leitora, antes de arranjar um namorado, marido, cacho, amante ou, simplesmente, um “homem pizza” (aquele que você liga e ele vem quentinho pra consumo), informe-se antes do time pelo o qual o rapaz torce e dê uma olhadinha na tabela no campeonato. Sua noite de luxúria poderá depender disto. Se o time tiver sofrido muitos gols, não desanime. Há um sempre um Marcão disponível por aí e que, provavelmente, para sua sorte, não dá a mínima para futebol...
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Da arte de tomar sol dentro de casa
Ela ama os últimos dias da primavera quando as manhãs de sol são suaves. Prenúncio dos dias de calor insuportável que virão. Nestes dias, o sol se dá no ponto exato da dobra entre o prazer e a preguiça. Entra pela janela lateral de um quarto e perfaz um ângulo perfeito para a contemplação.
Preguiça: s.f. estado de prostração e moleza, de causa orgânica ou psíquica, que leva o indivíduo à inatividade.
Confesse caro leitor: quantas vezes, num dia de semana, inclusive aqueles mais ocupados, você não olhou para aquele facho de luz incidindo sobre a sua cama e se deixou deitar e ficar ali simplesmente sentido o sol?
Ócio: s.m cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar
Pois ela levou isto às últimas conseqüências e criou uma verdadeira ciência, um douto saber sobre esta arte, milenar. Sim, a palavra é esta: arte. Tomar sol dentro de casa exige aprimoramentos e estudos constantes. Em suma, método.
Método: s.m conjunto de regras e princípios normativos que regulam o ensino ou a prática de uma arte
Em primeiro lugar, o colchão. Este deve ser colocado de modo que a incidência dos raios solares ocupe o maior espaço possível. Não precisa ser um grande colchão já que este é um prazer único, de solitárias vivências. Também não precisa ser um colchão bom. Pode ser um velho colchão, já moldado às exigências do seu corpo, como se fosse uma fôrma. O importante é que ele se dê ao sol (há colchões que o negam, retraindo-se à incidência da luz). Pois ela tinha o colchão perfeito: dobrável, onde seu corpo se estendia perfeitamente. O Colchão. Cada parte de si, cada fragmento, era preenchida pelo colchão, como se este fosse uma metáfora do seu corpo: um outro senão o mesmo.
Depois, a janela. Este talvez seja o item mais difícil e mais importante. Assim como há colchões que negam a luz, há janelas completamente opacas, às quais a luz nada diz. A janela deve ser transparente, dar-se à luz, permití-la, e simplesmente ser um meio, jamais um fim. A janela deve ser um anteparo à luz excessiva do mundo. Um filtro que só permite a passagem da luz na medida exata. Uma retina que se contrai diante do que é excesso. Enfim, a janela deve ser uma passagem tênue, imperceptível, porém eficaz, entre dois mundos: um de sensações imediatas e excessivas que não dão margem à lentidão (a que chamamos labor), outro, infinitamente mais prazeroso, de sentidos inexatos e vagarosos (a que chamamos preguiça). Para ela, a janela do seu quarto não era das melhores (ela preferia a da sala, muito maior, porém exposta ao alarido da rua), mas tinha a vantagem de se abrir para os fundos do prédio onde morava e não vislumbrava senão telhados, quintais e roupas estendidas no varal. Portanto, esta era a sua janela. E melhor: aprendera, assistindo a um filme chamado “Moça Com Brinco de Pérola”, que a limpeza da janela pode criar um efeito de luz todo especial. Assim, marcara os dias em que limpava a janela: gostava dela nem tanto limpa por completo (o que significaria uma luz impessoal) e nem tanto suja. Buscava o meio-termo, um ponto onde a sujeira criava a luminosidade que queria. Ela ria de si própria quando pensava nesta “sujeira metódica”. “Coisa de virginianos...”, dizia. Mas se vangloriava quando percebia as minúcias e as delicadezas do seu método.
Colchão e janela formavam as peças do seu jogo. Combinadas, restava a ela o ócio por atividade e a preguiça por exercício. Às vezes, deitava-se nua. Outras, com um pijama velho, de sapinhos estampados. Às vezes, folheava uma revista. Raras, um livro (Cortázar era o seu predileto). Porém, sua preferência era o devaneio. Puro e simples.
O sol. O de Curitiba é peculiar.
Não esquenta se for primavera. Pode-se ficar horas sob sua batuta.
Curioso isto. Lembro o de Buenos Aires. Ah, o de Buenos Aires era ótimo. Dava uma luz mais escura, e criava um jogo de tonalidades mais neutras. Bem definidas.
O sol de Curitiba será portenho?
?
É. Nunca prestei atenção nos sóis de outros lugares. Não lembro do sol de São Paulo.
O de Belo Horizonte não é muito bom não. Ilumina demais.
.......................................................................................................O sol daqui é ótimo mesmo.
!?!
E ali permanecia durante as manhãs, deitada, inerte, lenta. Pensamentos vagarosos, sensações esboçadas. Um quase limiar de algo que o método a impedia de concretizar. Tudo se desmanchava no ar dos seus pensamentos. O sol, a janela, o colchão, ela própria. Devaneio. Devôo.
Devanear: v.i divagar com o pensamento; perder-se em cogitações.
Não, ela não se perdia. Pelo contrário. Nestes momentos de ócio e preguiça e devaneios, sentia-se tão bem consigo mesma, tão viva, que desejava espalhar a sua arte, levá-la a amigos e conhecidos. Convidá-los a tomar sol consigo e compartilhar com eles o simples prazer da lentidão sob o sol e as delícias de não se fazer absolutamente nada.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Lição de Machado
domingo, janeiro 14, 2007
Pequeno Dicionário dos Afetos: Esperar
v.t.i (depende do caso: há pessoas que esperam indefinidamente) (1) Ato de aguardar algo ou alguém, mas que na verdade revela apenas nossa submissão ao Tempo. A espera pode ser amorosa: há quem espere com angústia um telefonema, um sinal, um aceno com a cabeça do ser amado. A espera pode ser fatal: há quem espere a morte ou sua notícia. Há também uma espera que rima com esperança: gestantes, por exemplo. Ou o fim de uma viagem. Em todas elas, é o Tempo que se antepõe às vontades. E em todas elas, a angústia se faz presente (aqueles que já esperaram alguém amado em um café ou em um bar que o digam)Sinonímia: Transporte Público em Florianópolis (o cúmulo da angústia)
Antonímia: Philip Glass
sábado, janeiro 13, 2007
Fora do Texto

Ele pára e durante minutos mira o papel em branco. Nestes momentos poderia apelar para certos recursos: um copo de café, um pouco de tabaco em seu cachimbo, uma música dos Beatles, uma mirada na janela para o prédio que se apresenta defronte a sua casa. Mas não. Ele recua diante de tais estrategemas. Fica ali, imóvel, inerte, absorto diante de uma simples página em branco. Ela o desafia. Tem em mente uma mulher no centro de São Paulo. Da onde tirou esta imagem? Talvez de alguma conhecida, talvez de um filme. Não sabe ao certo. Mas pensa num personagem feminino no centro de São Paulo.
Desde que descobrira que Anselmo lhe traía, Vera tomou a pequena Letícia como uma espécie de proteção de si própria. Estar junto à filha passou a ser o sentido da sua vida e um antídoto contra suas próprias ações. Já pensara em se matar. Já pensara em armar um escândalo. Já pensara no divórcio. Mas para tudo isto faltava-lhe coragem e sobrava-lhe amor por Anselmo. Quanto mais ele a maltratava, mais aos seus pés ela desejava se jogar. Pois Letícia, "Leti" como a chamava, lhe salvava destes pensamentos e lhe exigia a atenção que gostaria de dar ao marido. Assim, passear com a filha era um dos raros momentos de equilíbrio que tinha em sua vida. Naquela manhã de segunda, as duas vão passear no Largo do Arouche. É sossegado andar lá e nem parece o centro de São Paulo. E da sua casa, na rua Helvétia, até o Largo é próximo e bom de caminhar pela manhã. No Arouche, nada lhe chama muito a atenção, mas Vera estranha aquela moça sentada de olhos fechados no banco defronte ao quiosque. Mulheres sozinhas lhe parecem incógnitas. Não gosta daquilo. Porém, sente pena de uma outra jovem sentada próxima e que chora copiosamente. Por que choraria? Lembra de Anselmo e tem vontade chorar também.
Ele gosta do nome Letícia. E lembra que uma vez leu no jornal, no dia das mães, os depoimentos de algumas mulheres que diziam amar mais os maridos do que os filhos. Ficara impressionado com aquilo e compadecido das mulheres. Alguém que nega a maternidade carrega um estigma e isto lhe produz compaixão. Relê o texto e pensa que Vera talvez fosse assim e por isso não entende como uma mulher pode ficar sozinha. E por isso se compadece de outra que sofre, mesmo que não saiba o porquê. Porém, se for isto, a filha não pode ser um lugar de equilíbrio. Pelo contrário. Será que vale a pena mudar? Ele não sabe. Ademais, não estará muito meloso isto? Uma mulher que não consegue largar o marido? Tem cara de dramalhão mexicano. Pode ser, mas ele sabe que existem muitas mulheres assim. Conhece algumas que são mais esposas do que mães. Mesmo assim, ele está na dúvida. Talvez uma outra personagem. Uma jovem moça - o dia é de obsessão pelo feminino. Ele resolve tentar.
Anna já andara todo o centro de São Paulo desde que vira André com aquela outra moça. "Vadia", pensava. Anna não se conformava de estar sem André. Seguiu-o à noite e o viu com a moça entrando num bar da Paulista. Não teve coragem de entrar. Mas também não quis ir embora. Quis ficar ali e ver André com a outra. Era doído e Anna sofria com isto. Mas ela precisava ver isto. Há semanas ela suspeitava da existência de outra mulher. Estava ali somente para confirmar. Quando os viu, saiu correndo e caminhou sem direção por todo o Centro. Agora, às nove da manhã, estava ali, sentada num banco do Largo do Arouche. Chorava, copiosamente. E no seu choro não deu a menor atenção às pessoas que a observavam: os funcionários do quiosque de flores, uma moça sentada em silêncio num banco próximo, uma mulher que passeava com sua filha. Esta última ficou lhe fitando, como se quisesse saber o porquê de sua tristeza. Teve ganas de xingá-la, de dizer "não é de sua conta, infeliz!".
Ele desiste. Acha que de novo criou um apelo feito de imagens fáceis. Por que é sempre um homem a causa do sofrimento feminino? De onde ele tirou isto? Por que uma Anna abandonada ou uma Vera traída? Fica durante alguns minutos pensando nisto. Talvez o problema seja dele, em sua solidão, que o faz ver todos envolvidos em alguma relação. Talvez a escritura, para ele, acabe apenas refletindo os seus medos. Mas porque se limitar a isto? Ele levanta e vai à janela de casa e apenas observa, enquanto pensa neste ato que tem usado para estar no mundo, a escrita. E, por um instante, lhe vem a idéia de que lhe falta escuta, atenção às pessoas. Elas estão ali, a matéria-prima do que gosta de escrever. Basta observá-las. Ouví-las. Vem-lhe, então, a idéia de que a escritura está fora do texto: será que estes esteriótipos femininos que ele cria são devidos a sua pouca atenção ao que acontece fora de si? Talvez. Ele sempre admirou as pessoas que sabem ouvir e observar. Sempre quis ser uma delas, mas nunca foi muito bom nisto.
Talvez um dia, quando for mais atento, escreva um texto para além de qualquer lugar-comum. Talvez um dia, quando apenas viver e transformar a escritura num retorno da vida, sem mistificações, sem compaixões, talvez aí escreva um texto.
Ele resolve sair. Andar um pouco pelo centro. Desde que se mudara para o Largo do Arouche, perdeu o hábito de caminhar, o que é estranho, já que o Largo é tão sossegado. Há um quiosque, há os garis, um ou outro travesti da Vieira de Carvalho. O lugar exibe uma calma estranha para o centro da maior cidade que ele conhece. Quando sai do prédio, observa o Largo e o acha aprazível, mas não vê nada demais. Uma pena, porque se prestasse atenção, veria que próximo ao quiosque há três mulheres sentadas num banco. Uma delas segura uma criança.
Grandes Momentos da Inveja: o Futebol e João Cabral de Melo Neto
para o Helder e Rafael BenthiemE é exatamente por exalar tanta humanidade que o futebol me parece difícil de captar na palavra escrita. Talvez por isso o assunto não seja tão explorado. No Brasil, dos grandes, somente Nelson Rodrigues lhe dedicou um espaço central em sua obra. Seus dois livros - "A pátria de chuteiras" e "À sombra das chuteiras imortais" - são sublimes, sem contar crônicas diversas sobre futebol e bastidores. Outros grandes escritores deram ao tema um tratamento secundário: Drummond teve um livro de poesias sobre futebol publicado postumamente; João Ubaldo Ribeiro, Alcântara Machado, Rachel de Queiroz, Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio e Luiz Fernando Veríssimo compuseram pequenos contos sobre o assunto (o de Luiz Fernando, sobre as regras da pelada, é uma das lembranças mais fortes que tenho da minha infância). Mas é unanimidade se afirmar que o futebol ainda é um tema para ser mais explorado pela literatura.
Bem, isto cabe aos grandes escritores e aos críticos. De minha parte, que já vivo com a inveja de alguns dos autores acima citados e seus textos, gostaria de citar aqui um breve, mas absurdo poema, de João Cabral de Melo Neto (que inclusive, na juventude, foi aspirante do Santa Cruz de Recife). Talvez, ali, o casamento entre a palavra e o futebol esteja mais do que consumado. O poema se chama "A bola".
A bola não é a inimiga
P.S: reparem na foto. O zagueiro que está de frente para Garrincha é tcheco. Agora, eu pergunto a vocês: quando é que um tcheco, com cara de pânico, ficaria naquela posição com pernas arqueadas e mão na cintura?... Só o futebol faz isso.
segunda-feira, janeiro 01, 2007
5 Notas de Rodapé para Fim de Ano
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Dear Prudence
Querida Prudence,
Há tempos que não nos vemos. Há tempos. Quando a vi pela última vez, mal conversamos, pois achei que nos veríamos em breve. Mas não. Perdi sua direção e ainda sigo te procurando. Por onde andas? É possível que tenha vindo me visitar e eu não estivesse. Que azar, pois sua presença seria muito bem vinda. Sinto sua falta nesses dias abafados de fim de ano. Sinto falta da paz da sua presença. Lembro de quando vivíamos próximos um do outro. Era bom e eu não tinha tantos anseios.

Curioso é que eu estranhava a sua reclusão. Você nunca queria fazer nada. Ficava em casa o tempo todo enquanto nós, moleques ainda, estávamos na rua. O sol lindo daqueles dias, o céu azul, tudo tão bonito e você lá, como que meditando. Hoje sei que sua reclusão era muito mais um silêncio prazeroso do que uma atitude de ascese. É, eu nunca soube lidar com os silêncios, eles me dão medo. Meu pai (lembra dele?) agora se chama silêncio. Ele mal fala e isto me dá medo. E eu não sei lidar com isso. Você, com certeza, saberia entender o silêncio dele, sua mudez, sua distância. Eu não sou capaz disto ainda.
Sim, ainda. Porque entender e viver o silêncio é algo que se aprende. Tenho me esforçado tanto para isto, você nem imagina. Porém, como em tudo na vida, meu progresso é lento, muito lento. Mas espero chegar lá. Lidar com os silêncios, vivê-los como você.
Mas não é dos seus silêncios que eu me lembro mais. Agora, depois desses anos todos, certas coisas se desfazem e se perdem na fluidez da memória. Quando penso em você, lembro do sossego a que sua presença me remetia. Talvez porque eu fosse menino ainda (não saí disto ainda, na verdade), talvez porque eu fosse tão reprimido. Não sei. Só lembro que quando sentávamos no fim de tarde e ficávamos ali, os dois naquela preguiça juvenil, era bom e eu me sentia feliz. Às vezes, acho que toda a minha vida tem se resumido na busca daquela preguiça de fim de tarde, uma preguiça feita de vagarosas sensações e pensamentos imperfeitos.
Pois tudo o que eu queria agora era de novo a sensação daquelas tardes. Minha vida, Prudence, anda uma bagunça e estou atordoado. Não sei direito o que fazer. Por isso que eu gostaria de te rever. Ando num momento onde tudo o que faço está em suspenso, como se não tivesse direção. Pese aí também uma certa imaturidade, ou covardia, da minha parte: não sei lidar, admito, com as exigências da vida. Deixar-se levar, adaptar-se aos movimentos impostos, às exigências que se apresentam. Vejo as outras pessoas vivendo simplesmente: alguns casando, outros tendo filhos, fulano escrevendo seus livros, sicrano fazendo suas músicas. Tudo tão simples. Menos pra mim. Prudence, você não imagina como invejo estas pessoas. Elas parecem felizes. Se me perguntares se sou feliz, te direi que não sou. Se me perguntares o porquê, te direi que não sei. Talvez por isso eu esteja a sua procura. Talvez porque sua presença suscite em mim a lembrança de um tempo onde eu apenas vivia, sem grandes questões. Enfim, sinto falta daquelas tardes.
Mas não se assuste querida Prudence. Estou no meio de um redemoinho, é verdade (e cujo fim ainda está muito longe), mas ainda tenho esperança em mim mesmo. Sentimento piegas, não? Pois é, mas eu preciso acreditar que depois deste redemoinho virá uma calmaria, simplesmente para que eu possa respirar um pouco, ganhar fôlego, olhar para o que virá.
Seria bom se você viesse me visitar neste redemoinho. Seria útil. Venha, Prudence! Prometo não ser enfadonho e prometo que riremos lembrando daqueles dias quentes onde por perto estavam Zelo, Sassá, Pé e Antonieta; onde meu pai era falante e feliz; e onde eu não tinha a incômoda sensação de ser uma pessoa ruim. Talvez a sua presença seja o que eu precise para atravessar a tempestade.
Eu fico por aqui, minha querida. Espero que estas palavras te encontrem, onde quer que você esteja. E espero que você realmente apareça.
Um grande abraço daquele menino que você conheceu um dia e que ainda persiste em mim.



